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Os Desafios Reais da Identificação Digital na Era da IA Generativa

  • Foto do escritor: Lauser Zanetti Nunes Advogados
    Lauser Zanetti Nunes Advogados
  • 30 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Os sistemas de verificação de identidade, como o KYC (Know Your Customer) e a biometria facial, foram criados para aumentar a seguranƧa e reduzir fraudes. No entanto, com o avanƧo da IA generativa e tĆ©cnicas de spoofing, essas soluƧƵes estĆ£o enfrentando desafios sem precedentes. Este artigo discute os riscos reais — sem alarmismo — e as mudanƧas necessĆ”rias para garantir que a seguranƧa digital evolua junto com as ameaƧas.


1. As Vulnerabilidades Atuais Não São Teóricas

O KYC tradicional, baseado em documentos estĆ”ticos (RG, CPF, selfies), e a biometria facial 2D — ainda predominante em dispositivos Android — estĆ£o se tornando obsoletos. Criminosos jĆ” utilizam ferramentas de IA para:

  • Criar rostos sintĆ©ticos (via Generative Adversarial Networks – GANs) que enganam sistemas de reconhecimento.

  • Falsificar vĆ­deos e vozes em golpes de deepfake para aprovação de cadastros bancĆ”rios.

  • Automatizar fraudes em massa com serviƧos de Fraud-as-a-Service (FaaS), disponĆ­veis na dark web.


Dados concretos:

  • Um relatório da Javelin Strategy & ResearchĀ (2023) mostrou que fraudes de identidade cresceram 87% no setor financeiro desde 2020.

  • No Brasil, golpes como fakes accounts em fintechs e clonagem de biometria no PixĀ jĆ” resultaram em perdas de R$ 1,5 bilhĆ£o em 2023, segundo a Febraban.


2. Por Que a Biometria Sozinha NĆ£o Resolve?

A biometria facial em 2D (usada por 99% dos Androids) Ʃ vulnerƔvel a:

  • Fotos de redes sociais usadas em ataques de presentation spoofing.

  • VĆ­deos manipulados que burlam verificaƧƵes "ao vivo".

Mesmo a biometria 3D (como no Face ID da Apple) não é infalível. Estudos indicam que, em condições extremas, taxas de falsos positivos podem chegar a 1 em 1.000.000 (Apple), mas criminosos jÔ exploram vulnerabilidades utilizando moldes faciais tridimensionais.


O problema central:

Identidade nĆ£o Ć© o mesmo que confianƧa. Um rosto ou documento vĆ”lido nĆ£o garante que a pessoa por trĆ”s dele seja quem diz ser — ou que nĆ£o esteja cometendo fraude.


3. Para Onde Precisamos Ir?

A solução não estÔ em abandonar o KYC ou a biometria, mas em evoluir para modelos dinâmicos e baseados em comportamento:


a) KYT (Know Your Transaction)

Monitora padrões de transações (valor, frequência, localização) em tempo real.

  • Exemplo real: O Banco SantanderĀ implementou um sistema que bloqueia transaƧƵes atĆ­picas, como uma compra de alto valor na RĆŗssia minutos após um login no Brasil, exigindo confirmação adicional (Santander Security).


b) Biometria Comportamental

Analisa como o usuÔrio interage (digitação, movimentos do mouse, navegação), não apenas "quem ele é".

  • Empresas como BioCatchĀ e BehavioSecĀ jĆ” utilizam esse modelo para detecção de fraudes bancĆ”rias.


c) Redes de ConfianƧa e Identidade Colateral

Vincula identidades a múltiplas fontes (redes sociais, histórico bancÔrio, dispositivos conhecidos).

  • Plataformas como SignicatĀ e ID.MeĀ jĆ” utilizam essa abordagem na Europa e EUA (Signicat).


4. O Papel da Regulação e da Indústria

Legislação:

  • UniĆ£o Europeia:Ā O eIDAS 2.0Ā visa padronizar a identidade digital em todos os estados-membros.

  • Brasil:Ā A LGPDĀ e o Marco Civil da IAĀ ainda carecem de regras especĆ­ficas para autenticação digital e responsabilização por vazamentos (Gov.br).


Iniciativas tƩcnicas:

  • Adoção de C2PA: Um padrĆ£o emergente para certificar a origem de conteĆŗdos digitais.

  • Autenticação multifatorial obrigatóriaĀ em serviƧos financeiros crĆ­ticos.


Um Chamado para Evolução, Não Pânico

As vulnerabilidades existem, mas não são invencíveis. A resposta estÔ em:

  • Migrar do KYC estĆ”tico para sistemas baseados em comportamento (KYT).

  • Exigir biometria 3D ou camadas extras de verificação em transaƧƵes sensĆ­veis.

  • Educar usuĆ”rios e empresas para identificar golpes e adotar boas prĆ”ticas.


No entanto, a implementação dessas soluƧƵes enfrenta desafios, como custos elevados, resistĆŖncia dos usuĆ”rios, questƵes regulatóriasĀ e impactos na privacidade. A IA generativa Ć© uma ferramenta poderosa — tanto para criminosos quanto para quem desenvolve seguranƧa. O desafio Ć© adaptar-se rĆ”pido o suficiente para que os benefĆ­cios superem os riscos.





Gregori Dalgais | OAB/RS 85.153 Sou natural de Pelotas/RS, graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande, possuo pós graduação em Processo Civil, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e em Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, na Faculdade de Administração da Universidade Federal de Pelotas. Sou conselheiro da subseção Pelotas da Ordem dos Advogados do Brasil e presidente de uma das comissões temÔticas especiais da casa. Atuo no ramo da tecnologia, novos negócios, startups e antidiscriminação. gregori@lzadvogados.com.br



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